Pensar que esse dia está chegando me faz lembrar dos meus avós. Nasci em uma família que sempre soube sorrir pelas coisas mais simples, cheia de amor e vontade de vencer. Meus antepassados tiveram pouca — ou quase nenhuma — oportunidade de pegar na ponta do lápis e se eternizar em palavras, como eu, de olhos fechados, até consigo fazer. Ainda assim, isso nunca lhes roubou o sorriso. Eles permaneceram nas fotografias e nas memórias que, ano após ano, persistem em fenecer. Meu irmão, doze anos mais novo do que eu, sequer se lembra deles.
Carrego comigo um profundo orgulho e respeito pelos meus velhos. É preciso reconhecer que, dadas as circunstâncias, eles fizeram o que dava para ser feito — e, por isso mesmo, foi o melhor que podiam fazer. Cada decisão, de uma forma ou de outra, conduziu-me exatamente até aqui. Não como destino traçado ou causalidade rígida, mas como um acaso organizado, intuitivo. Uma vez, em um momento marcante da minha vida, alguém me disse que eu tinha a intuição mais aflorada. É como se o vento sussurrasse a direção para a qual a árvore vai balançar.
Claro que eu não imaginava que, a essa altura, receberia um reconhecimento tão generoso de uma organização séria da cidade que, à primeira vista, me fez amar. E não é fácil conquistar um coração recifense. Migrar amplia horizontes, reduz preconceitos e derruba barreiras. Fez-me acreditar que existe um futuro em que o maior desejo de cada um de nós será cuidar melhor da nossa humanidade.
E volto, mais uma vez, aos meus avós. Talvez eles tenham sido parte da última geração de seres verdadeiramente humanos em essência: imperfeitos, incompletos, limitados pelas circunstâncias que carregavam nas entranhas. Ainda assim, havia uma pureza na forma como viam o mundo. Não existia a preocupação de impressionar. Hoje, isso parece cada vez mais raro.
Tento resgatar em mim esse olhar: primeiro, porque preciso me despedir das impressões alheias para realmente enxergar o outro; segundo, porque aquilo que me acrescenta deve apenas acrescentar, sem um apêndice oneroso; terceiro, porque compreendo que passamos rápido pela vida. Que, no desenfreio, sejamos ao menos isso: gente. Gente como meus avós — de mãos calejadas, bravura diante da vida e voracidade para encontrar seu lugar ao sol.
Desde o dia 10 de janeiro, quando recebi a notícia de que passaria a compor o quadro da Associação de escritores e artistas da cidade, tenho refletido sobre o que isso representa na minha jornada literária (e pessoal e profissional). Existe uma responsabilidade social que ultrapassa o reconhecimento e que precisa ser pontuada.
Não se trata de deixar um legado pessoal ou de ser algo maior do que se é, mas de fomentar a literatura brasileira, fazer com que as palavras criem vínculos entre as pessoas e despertem humanidade. Interpretar a vida por meio da literatura não é um caminho linear: ele é circular. O fim é o próprio começo. Tudo está interligado, como os desenhos das veias humanas, semelhantes aos encontrados nas folhas das árvores. A literatura tem esse poder de criar vínculos.
Cheguei a esta cidade há alguns anos, e mesmo sendo um recifense orgulhoso, posso afirmar, com convicção: Valinhos tem o meu coração. Escolhi conhecer sua história, seus personagens, suas vozes. E foi nesse percurso que encontrei Roque Palácio, não apenas como nome, mas como símbolo de pertencimento.
Roque Palácio foi um comunicador nato, artista múltiplo e profundamente apaixonado por Valinhos. Atuou na imprensa, no rádio, na televisão, nos eventos culturais, na Festa do Figo e no carnaval — manifestação que me atravessa de maneira especial, vindo eu do Recife, cidade de forte tradição carnavalesca.
Nesses últimos dias, tive a oportunidade de conversar com sua irmã, a professora Josefina Palácio. Logo compreendi que Roque não cabia em um único papel. Ele vibrava com a cidade. Tudo o que dizia respeito a Valinhos era, para ele, motivo de alegria, entrega total e dedicação sem horários. Esse espírito inquieto e agregador é parte essencial do legado que esta cadeira carrega, e que recebo com profunda gratidão, humildade e entusiasmo.
É, meus amigos, eu imagino que meus avós me dariam um sorriso diante deste marco. Talvez um abraço, e eles diriam, à maneira deles, que valeu a pena eu ter buscado mais — mais no mundo, mais na palavra, mais sentido pra vida. Que cada passo fora do lugar conhecido teve seu preço, mas também sua recompensa.
Eles, que não puderam se eternizar em palavras, seguem vivos nas histórias que conto. No jeito de perceber o mundo, na forma de insistir, na coragem de continuar. Se estou prestes a ocupar uma cadeira numa Academia de Letras e Artes, é porque caminho apoiado nos ombros de quem, mesmo sem escrever, deixou exemplos para que eu pudesse ler a vida.
Que eu saiba honrar essa herança invisível. Que títulos não me afastem da humanidade, mas me aproxime dela. E que, ao escrever, eu nunca me esqueça de onde vim. Porque é justamente daí que nasce tudo o que ainda posso ser.
Vivas à Academia Valinhense de Letras e Artes.
Vivas à cultura brasileira.


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